INVENTÁRIO DE UM CALVÁRIO NÃO ANUNCIADO

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 Há dez anos atrás eu fui internado no INCOR (Hospital do Coração) com a previsão de sete horas de sobrevida. Pelas mãos iluminadas do dr. Sérgio de Almeida, abriram meu Graal e foram colocadas três pontes de safena e uma mamária.

 É normal, após cinco anos, o operado voltar ao hospital para cateterismo e angioplastia, onde é colocado um "stent" que irá ajudar na circulação normal do sangue.

 Eu cheguei a pensar quer escaparia ileso desta intervenção, mas em outubro de 2010 comecei a manifestar os primeiros sintomas de angina (dores intensas no coração). Afinal, todas as manifestações anteriores de dor e incômodo, incluindo nos três infartos, foram sempre na boca do estômago; porisso sempre associei as dores do coração à sensação de indigestão.

 Com as dores da angina - e a dependência progressiva da "nitro" sublingual (Isordil) - se agravando nos meses de março e abril, meu cardiologista marcou o primeiro caterismo para o mês de junho.

 Em junho foi realizado o primeiro cateterismo e constatada uma lesão em uma das safenas. Como a operação é realizada apenas com anestesia local (ainda bem!) meu cardiologista chegou a me consultar se - ao invés de colocar um stent - eu aceitava encarar um tratamento alopático. Aceitei e foi graças a isso que eu pude operar a catarata que estava me cegando paulatinamente há dois anos. Se tivesse optado pelo stent, por questões de coagulação do sangue, eu teria que esperar um ano - um ano e meio - para operar os olhos.

 Resolvido o problema da catarata, voltei a tomar os remédios anti-coagulantes e constatei com meu cardiologista que a angina andava piorando dia após dia. Por outro lado, os anti-coagulantes fizeram surgir uma forte alergia cujas graves ulcerações se manifestaram na região do púbis, rosto e cabeça (ou seja, onde havia cabelo). Com isso nenhum médico da face da terra iria aceitar realizar um novo cateterismo. Foram mais duas semanas de tratamento pesado com antibióticos até sanar a alergia.

 Finalmente, o segundo cateterismo foi marcado para o dia 8 de setembro, um dia após o aniversário de Lygia, minha mulher, e da Sessão do Comodoro. Dia 08, em jejum absoluto desde as 21 horas do dia 07, me internei no INCOR às sete horas da manhã, após todo o procedimento normal de um dependente do SUS. Às 11 horas da manhã fui conduzido à sala de cirurgia, já devidamente "depenado". Juro que entrei eufórico (pela primeira vez na vida) na sala de operações. Afinal de contas, iriam colocar o tal stent na safena danificada, e eu iria na certa poder correr na São Silvestre no final de 2011. Não foi o que aconteceu...

 Deitado e olhando aquele bando de homens se mexendo naquele ambiente quase high-tech, minha espectativa ia aumentando. Ja havia me acostumado a não ligar de sentir dois ou três caras de azul mexendo na minha virilha e naquele dia - em especial - fiquei espantado de mal sentir a primeira picada da antestesia e nem experimentar o incômodo da punsão.

 Durante oito minutos os especialistas trabalharam intensamente na tentativa de resolver o problema da safena lesada e isso eu pude acompanhar - acordado - pelas quatro televisões do centro da sala de cirurgia.

 Foi quando o especialista me disse: "Eu fiz que pude, senhor Carlos. Daqui p´ra frente é com seu médico.". Insisti em saber o quanto era grave o estado da safena, mas por questões éticas e médicas ele não quis entrar em detalhes. Acho que devo ter mostrado irritação para que ele quebrasse o clima com uma pitada de humor negro: "Fique tranquilo... não é nada terminal.". Até eu dei risada. Finalmente, ele abriu um poouco mais o jogo: "O quadro se agravou nas últimas semanas e a safena está realmente lesada.". Para bom entendedor....

 Ele me informou que iria iniciar os procedimento de retirada do catéter e fechamento do corte. Segundos depois, comecei a sentir um formigamento na boca. Dei um grito: "Doutor, tem um negócio esquisito acontecendo. Eu não estou mais sentindo a minha boca e a sensação tá descendo para o braço... agora é a perna...".

 Todos os médicos e enfermeiros se movimentaram rapidamente pela sala. Eu não sei quanto litros de anticoagulante foram injetados na bolsa do soro que estava sendo aplicado nas minhas veias.

 Não precisei me formar em medicina para entender que aquela coisa aterrorizante era uma séria ameaça de AVC. Mais tarde me informaram que na tentativa de encontrar um lugar possível para o stent - inútil no caso da lesão na safena - uma placa sanguínea se desprendeu e foi se alojar no frontal da minha cabeça.

 RESUMO DA ÓPERA - Se eu tivesse sido sedado completamente, hoje eu estaria paralítico! Por isso, intervenções como cateterismo e angioplastia são realizadas somente com anestesia local.

 Após uma espera infindável no meu quarto de hospital, onde devo ter quase enlouquecido minha mulher com os acessos de revolta contra o "Grande Arquiteto" e o resto do mundo (afinal, eu havia entrado no hospital para resolver um problema e não sair com outro), fui liberado para ficar de pé e comprovar que não estava aleijado. Ao por os pés no chão, descobrir que estava andando normalmente e dar um mijada libertária, enchendo o tal "papagaio" do hospital com todo o iodo do contraste que havia sido injetado nas minhas artérias, o sol voltou a brilhar para os meus olhos livres de catarata e ávidos de paisagens inéditas.

 A foto acima foi tirada uma hora depois de todo esse pesadelo. Talvez, por isso, a continência aos amigos tenha saído meia-bomba.

 Agora estou recuperando gradativamente os movimentos normais no braço esquerdo e me libertando da dormência do lado esquerdo do rosto. Daqui para frente sei que vou precisar diminuir um pouco o ritmo, mas estou vivo, pensando melhor que nunca e eufórico com a espera da chegada, em outubro, de Carolina, minha segunda neta. Além disso tem um novo projeto de filme - a ser realizado após UM ANJO DESARTICULADO - que não me deixa mais dormir direito ou morrer, e que vai contar um pouco a história da vinda da minha mãe, da Estônia ao Brasil, na década de 20, e ilustrar uma fantasia pessoal, emocional e afetiva a respeito de Lenin.



Escrito por Carlos Reichenbach às 15h36
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